




Para além da curva da estrada
talvez haja um poço, e talvez um castelo,
e talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva,
só olho para a estrada antes da curva,
porque não posso ver senão a estrada antes da curva
de nada me serviria estar olhando para outro lado
e para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
há a estrada sem curva nenhuma.
Poema de Alberto Caeiro/ Fernando Pessoa

minha táctica é
falar-te
e escutar-te
construir com palavras
uma ponte indestrutível
minha táctica é
ficar em tua lembrança
não sei como nem sei
com que pretexto
porém ficar em ti
minha táctica é
ser franco
e saber que tu és franca
e que não nos vendemos
simulados
para que entre os dois
não haja cortinas
nem abismos
minha estratégia é
em outras palavras
mais profunda e mais
simples
minha estratégia é
que um dia qualquer
não sei como nem sei
com que pretexto
por fim me necessites.
Poema de Mario Benedetti


Ida e volta
Quando nos encaminhamos para o amor
todos vamos ardendo.
Levamos amapolas nos lábios
e uma centelha de fogo no olhar.
Sentimos que o sangue
nos golpeia as têmporas, as pelves, os pulsos.
Damos e recebemos rosas vermelhas
e vermelho é o espelho do quarto na penumbra.
Quando voltamos do amor, vagarosos,
desprezados, culpados
ou simplesmente estupefactos,
regressamos muito pálidos, muito frios.
Com os olhos e os cabelos envelhecidos e o número
de leucócitos nas alturas,
somos um esqueleto e sua derrota.
Porém continuamos indo.
*
de Amalia Bautista
(poetisa que eu adoro adoro adoro)








Ele chama-se Coplu, pinta desde criança, nasceu na Turquia e vive em Vancouver, Canadá.
Há um vencedor e um vencido. O vencedor, às vezes,
veste-se de um sorriso malicioso para humilhar o vencido.
Porque os homens são assim.
de Saint Exupéry